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Veredictos no 

cemitério dos sonhos

Falta o casaco, derradeira peça que compõe a figura de tão distinto neurorradiologista. João Carlos, ainda com metade do pão na mão direita, despede-se apressadamente da mulher, uma simpática farmacêutica, e do seu filho único, o desafiante Tomás, com a promessa de “logo, quando vier, veremos quem é rei na PlayStation”.

Chegado ao centro onde monitoriza e relata tomografias computorizadas e ressonâncias magnéticas, descarta de imediato o mesmo casaco no já celebrizado cabide que por estes dias é só seu por direito. Agora é como se envergasse a camisola do seu FCP. Uma bata, com a designação da empresa em alto-relevo, confere-lhe uma aparência vincadamente institucional. A técnica que o acompanha já o esperava. Joana acolhe os pacientes e executa, com assinalável rigor, todos os preparativos. É uma parceira na verdadeira acepção do termo. Com ela, os mais temerosos nem parecem temer a picadela da injecção de contraste. A qualidade do exame começa por depender dela.
Por norma, nem chega a falar com aqueles que se têm de submeter ao concludente veredicto das novas tecnologias. Há que apreciar as maravilhas do progresso. Muitas vezes, entre colegas, lembra: “antes, abria-se para ver; hoje, vê-se primeiro para abrir depois…” João Carlos optou, contra a sua natureza, por ser de poucas palavras. Circunspecto na forma, decidiu confinar-se à objectividade do perímetro da cabine onde, em primeira-mão, vê, constata ou descobre o que outros nem sempre suspeitaram.
Nos primeiros tempos, quando as notícias eram mesmo “muito más”, ainda se aventurava em mentalizar os examinandos para o “gancho” que a vida se preparava para lhes infligir. Como quem está para morrer não gosta de o saber, as reacções foram de molde a convencê-lo a não repetir semelhante generosidade. Com a tarimba que o tempo impõe, percebeu que ser mensageiro de tão severos prenúncios não compensava. Passou muitas noites em branco. Houve momentos de dolorosa agonia onde irracionais sentimentos de culpa o consumiam até à medula. Foi então que deliberou de si para si. Os colegas que requeriam aqueles exames que assumissem doravante, e na íntegra, o ónus de participarem tão infausta notícia.
Por ora, assume que tudo se resume ao preenchimento de um documento com uma estrutura assumidamente sagrada: Técnica, Relatório e Conclusão. Já basta ter de emprestar a sua assinatura a tão crescente número de sentenças de morte neste tempo onde viver pode ter deixado de ser um privilégio singular.
Para esta manhã, um conjunto de exames de alcance previsível. Neste momento, entrou uma jovem professora cuja ficha diz estar à beira dos vinte e sete anos. A imageologia confirma o pior. Recosta-se na sua agora desconfortável cadeira. No rosto da paciente, imagina um mosaico de imagens especulando sobre o que terá sido a sua vida e presumindo o que esta lhe reservará no futuro próximo. Por instantes, amaldiçoa as máquinas. Sentira novamente compaixão por alguém que não conhecia, aquele tipo de empatia que só se gera no infortúnio. Sente um arrepio no estômago mas defende-se com o instintivo cinismo de quem, apesar de tudo, sabe que não vai ter de dar a cara. Não vale a pena. O relatório será preciso e esclarecedor. Infelizmente.
Lá no fundo, João Carlos, sabendo não ser nenhum coveiro cooptado pelas novas tecnologias, sente-se ainda assim alguém pontualmente desprezível. Naquela sua arena profissional, cemitério imprevisto de muitos sonhos que ali jazem sem apelo nem agravo, pressente o turvo movimento de almas precocemente traídas. Ele é o homem dos veredictos que, contra tudo e contra todos, alimenta a compreensível vontade de, uma vez por outra, estar enganado.
José Manuel Alho

 

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“Creio que o desafio diário que se coloca a todos os professores é TOCAR os seus alunos, deixar ou ser uma referência inequivocamente positiva. Mas tudo isto é um processo contínuo, que exige tempo e cumplicidade.”

 
  • Entrevista conduzida por Ana Beatriz Gonçalves Costa a José Manuel Alho 
 
E isso poderá prejudicar o seu rendimento e os resultados?
Depende. Cada caso é um caso. Muita da pressão vem de casa. Em alguns casos, ocorrem bloqueios dado que a estrutura emocional e afectiva de uma criança do 1.º CEB, nos seus traços distintivos, ainda não está formatada para suportar esse ónus. Há quem defenda que assim as crianças percebem a responsabilidade a que estão sujeitos…
Sempre que tenho uma turma desde o 1.º ano, tento até desmistificar um pouco  a figura do Processo Individual do Aluno. Procuro que a organização do mesmo seja um momento natural, feito com os alunos. Este procedimento tem igualmente o condão de eles (os alunos) ficarem a perceber que há necessidade de ter, também neste caso, processos organizados, de maior pendor formal, para mais tarde consultar. As crianças quanto mais jovens, maiores são os seus receios de defraudar as expectativas lá de casa. Podem tender a deixarem-se tomar pela insegurança, pelo medo, enfim, por um conjunto de circunstâncias que nós, às vezes, nem sequer dominamos e que escapam ao nosso conhecimento pois são questões que contendem com dinâmicas familiares. Não sou psicólogo nem pedopsiquiatra, apenas estudei Psicologia do Desenvolvimento e Psicologia da Aprendizagem. Entendo que tudo se consegue conversando e, acima de tudo, escutando. Crianças há que às vezes, num momento de maior tensão, basta uma palavra, um gesto, um olhar, um toque…
Aqui há tempos estava a ver um documentário sobre psicologia comportamental adaptada ao desporto. Está provado que um jogador, de qualquer modalidade, quando é tocado pelo treinador ou quando recebe um gesto de confiança do colega, como uma mão no ombro ou um carinho na cabeça, a motivação aumenta e a capacidade de superação é accionada. Creio que o desafio diário que se coloca a todos os professores é TOCAR os seus alunos, deixar ou ser uma referência inequivocamente positiva. Mas tudo isto é um processo contínuo, que exige tempo e cumplicidade. Não traz resultados imediatos, mas cumpre reconhecer, numa abordagem mais genérica, que viver sob pressão faz parte da vida e quanto mais depressa o compreendermos e o aceitarmos, maiores serão as possibilidades de fazermos uso de certas ferramentas que nos tornarão, a todos os níveis, mais habilitados e capacitados.
 
Gostava especificamente de abordar uma modalidade de avaliação que é a avaliação formativa. Este conceito…O que é para si a avaliação formativa?
A avaliação formativa acaba por ser uma forma de, quer professores, quer os alunos, poderem aferir, a cada momento, de como está a decorrer o processo ensino-aprendizagem, de como está a ser consumido, entre aspas, o processo de assimilação, de acomodação e aplicação dos conhecimentos. Encaro a avaliação formativa na minha prática pedagógica como uma forma de também saber se as opções que assumi e o caminho trilhado estão a ter os resultados que esperava. Se sim, óptimo! Se não, tenho que ter o profissionalismo, feito também de humildade, de indagar dos factores e razões que possam estar a inquinar todo o processo. Nessa óptica, avaliação formativa é uma sondagem estruturada que o professor faz para, num dado momento, monitorizar a qualidade e eficácia do seu trabalho.
 
E julga que para colocar em prática essa modalidade de avaliação, avaliação formativa, precisa de algumas condições específicas?
Numa visita de estudo podemos fazer avaliação formativa, desde que saibamos depois tratar a informação fornecida pelo “antes”, “o durante” e “o depois” dessa actividade. Através de uma Área de Projecto, que parece subitamente desvalorizada em favor de projectos que garantam visibilidade a certas estruturas. Aprecio e reconheço grandes méritos a esta modalidade (Área de Projecto), porque incute, de forma despretensiosa, uma mentalidade de projecto, de trabalho em pares, de parceria e em comunhão de esforços. E tudo isso fortalece as dinâmicas de grupo enquanto propulsionadoras das virtudes de uns e do combate às limitações de outros. Não havendo receitas sagradas, de efeito garantido, a avaliação formativa implicará sempre leque variado e diversificado de opções. Depois coloca-se ao professor o repto de saber filtrar essa informação e registá-la de forma sistemática. Essa informação recolhida deve ser posteriormente tida em conta na redefinição, desejavelmente contínua, das práticas pedagógicas de cada docente. Não há práticas que se mantenham, apesar dos devir dos tempos, sacrossantas para todos os alunos, e aí eu defendo, como sempre defendi, turmas reduzidas no 1.º Ciclo, que não ultrapassem os 18 alunos. Porque o grau de autonomia das crianças destas faixas etárias é reduzido, as famílias hoje não têm uma dinâmica que lhes permita estar e acompanhar os seus educandos como antigamente, reuniram-se as condições para se apostar, sem resiliência, num ensino personalizado, individualizado, de proximidade afectiva e emocional, que potencie o melhor dos professores e dos alunos.
 
Voltando outra vez à sua experiência profissional, acha que os professores, de uma maneira geral, atribuem muita ou pouca importância à avaliação formativa?
Sinceramente, muitos de nós, às vezes, fazemos avaliação formativa sem o sabermos. Não tenho dados objectivos para fazer uma afirmação sentenciosa – não passa de uma presunção especulativa da minha parte – mas não estarei longe da verdade se disser que todos os professores fazem avaliação formativa. No entanto, é imperioso sistematizar a informação recolhida para, naquela óptica há pouco referida de auto monitorização, aperfeiçoarmos estratégias, métodos e até corrigirmos situações menos boas.
 
No final, acha que esses professores têm em conta a avaliação formativa que foram fazendo?
Sim. Porventura instintivamente e de forma reflexa, não muito deliberada, acabamos todos por validar as diversas modalidades de avaliação formativa que implementámos. Outros há – e são muitos – que, apesar do crescendo de atribuições administrativas ou burocráticas a que todos foram entregues, registam minuciosamente todos os resultados e suas variáveis. Esta questão entronca numa outra que é a de perceber, de uma vez por todas, que os docentes devem centrar os seus esforços e energias exclusivamente na actividade lectiva. Tal exigirá nova mudança de paradigma, como que um regresso ao passado. Nem tudo o que se fez no passado é mau! (risos) A História prova que as questões de mentalidade são o passaporte para as mudanças positivas, genuinamente transformadoras; não mudar por mudar, mas mudar para transformar. E isso vai demorar o seu tempo.
 
Então que importância atribui à formação dos professores em avaliação? Acha que está disponível? Acha-a necessária?
Precisamos de formação. É obviamente necessária. Contudo, a julgar por alguns professores que tive na Universidade, por alguns formadores que conheço, será uma margem muito marginal, passo a redundância, de pessoas que estarão realmente habilitadas a fazer formações sobre avaliação. Recordo-me de uma acção de formação sobre avaliação por mim frequentada que rapidamente se transformou num debitar de legislação e de bibliografia absurdamente irrelevante. E tudo se resumiu a isso. Creio que ao nível do 1.º Ciclo a situação não será tão preocupante quanto aquela que verifico poder ser em outros níveis de ensino. Talvez pela monodocência… A formação de e com qualidade é, sem dúvida, importante, mas tem de ser garantida pela tutela. Nesta matéria, e mau grado algumas tentativas recentes de motivações muito discutíveis, não pode haver margem para zonas nebulosas.
 
Gostava que me caracterizasse em poucas palavras a relação que habitualmente estabelece entre si e os seus alunos.
Ontem como hoje, tenho uma relação diferente com cada um dos meus alunos. Pelo menos, esforço-me diariamente por isso. Quando um ser de 6 anos de idade entra numa escola e vê o(a) professor(a), imaginará que ele ou ela será um ser de outro mundo, com uma vida muito especial, oculta até; uma pessoa distante. Muitos destes conceitos ainda são, reconheça-se, inculcados pela sociedade. Nos primeiros dias de aulas, quando me apresento a uma qualquer turma do 1.º ano, começo por dizer-lhes que o meu pai era tipógrafo (risos) – tenho que explicar, na medida do possível, o que ERA um tipógrafo; a minha mãe era cozinheira num hospital; quando tinha a idade deles, acordava sem ninguém em casa e que tinha o café frio e um pão do dia anterior em cima da mesa porque os meus pais iam para o trabalho muito cedo e não tinham tempo para me comprar pão do dia quanto mais para me vestirem…Eram tempos em que já tinha a chave da casa e quando chegava para almoçar, comia sozinho; retirava a comida dos termos e arrumava a louça, enfim, fiz por desmistificar alguns (pré)conceitos que às vezes a criançada assimila. Findo este degelo, lá estou eu desnudado de todos os meus supostos privilégios, de alguém na vida que, num passe de mágica, se tornou professor! Desde que me conheço que procuro ter uma relação humanista e humanizada. Tento tocar literalmente os meus alunos. Em abstracto, quando somos colocados num meio porventura machista, onde, por exemplo, o Pai não seja muito dado a carinhos ou proliferam famílias disfuncionais, é ainda mais importante investir no afecto. Já me aconteceu abraçar os alunos e eles ficarem um pouco surpresos, empedernidos ao ponto de quase não retribuírem. Quando dava um  sonoro “bom-dia” ou lhes dizia que estava “mesmo contente” com que o que tinham feito, olhavam-me com perplexidade… Passado algum tempo, conclui-se que vale sempre a pena. Sou um “tipo” que veste calções, que conhece e usa alguma da linguagem deles e, como eles/elas, não gosta de perder nem a feijões! (risos)
Simultaneamente, sou exigente. Alguns apelidar-me-ão de conservador, mas sou, por natureza, um viciado pela pontualidade. Portanto, chegar às 9 horas não é o mesmo que chegar às 09:05H. Sou sempre o primeiro a entrar e o último a sair da sala; gosto que os alunos atrasados batam à porta e cumprimentem com um “bom-dia” os colegas que chegaram a horas. No fim de um dia de aulas, aprecio deixar uma sala de aula com as mesas alinhadas, as cadeiras encostadas e o material arrumado, sem papéis no chão… São hábitos transponíveis para o resto da vida toda; o ser metódico, organizado, pontual…
Em resumo, e sem me ater a nenhuma situação concreta – falando sempre no geral - a minha relação com uns alunos resume-se a uma busca incessante por um equilíbrio entre a Exigência, enquanto valor estruturante, e aquela relação que faço por ser humanista e humanizada. Falamos às vezes de crianças carentes; algumas só verão realmente a sério os pais ao fim-de-semana, porque agora há muitos encarregados de educação a trabalhar por turnos e nem sequer se encontram com a disponibilidade recomendável. O professor acaba por ser um actor que se desdobra em múltiplas personagens para atingir um público muito diversificado. Assumo por isso vários rostos, várias figuras porque tenho que chegar a alunos de maneira diversa porque todos são diferentes. E a essência do famigerado desgaste rápido e intenso do professor do 1.º ciclo residirá nesta necessidade nos transformarmos, de nos reinventarmos aos olhos de quem tem a PSP ou o Programa da Lucy como alternativas bem mais apelativas! (risos)
Isso dá-me um gozo impagável e apura a capacidade do Professor para se relacionar com a diversidade e de conhecer a complexidade da individualidade humana.
 
 
 
(continua)

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Mulher traída, mulher erguida?

por José Manuel Alho, em 22.09.08

 

Nasceu uma mulher
naquele S.João
 Aberta a porta, atirou as chaves para a mesinha do telefone. Exausta, vocifera contra os enfeites de S. João que nunca como agora suscitaram tão instintiva oposição. Cristiana, recém licenciada em Direito, pressente uma atmosfera de despedida. Os objectos decorativos, os brinquedos da pequena Joana e as fotos com o marido, que sempre julgara conhecer como as definidas linhas das suas mãos, obrigam-na a desferir um olhar giratório como que compondo um embriagado mosaico de imagens do essencial destes últimos meses de uma falsa vida a dois.
Sentada no outrora experimentado sofá, cúmplice de tantas confissões e segredos, dos tais que carregam a futilidade de uma desejada intimidade, não logra furtar-se a uns hemorrágicos fios de lágrimas que assinalam uma dor que só um coração esgaçado pela mentira conseguirá suportar. Afinal, só haviam passado três anos sobre aquele sábado de estio onde se celebrara um surpreendente enlace antecedido de oito meses de intenso namoro. Ele, pejado de heranças, com um apelido capaz de abrir disputadas portas, decidira investir numa central de táxis na sempre cosmopolita cidade de Londres.
Espantada e totalmente desprecavida, aceitara na altura dar o seu apoio ao último devaneio do agora determinado marido. É nestes momentos que se fazem os companheiros. Ele estava mesmo animado e confiante nos méritos deste seu empreendimento. Seguiram-se múltiplas viagens à capital inglesa que Cristiana, por dever do ofício que abraçara como um sacerdócio vitalício, optara por não acompanhar.
Há semanas, no intervalo de um julgamento, daqueles que ameaçam arrastar-se por manifesta litigância gratuita das partes, não enjeitou o ensejo de, sozinha, ir ao encontro do mais que provável futuro empresário de sucesso. Incrédula, deparou-se com uma amálgama de táxis mal lavados, encardidos pela peculiar poluição londrina onde o fumo se consubstancia por meio de um nevoeiro absolutamente intragável. Num inglês vulgarmente fluente, ouviu a indicação de que o dono da frota de táxis se encontrava nos escritórios do edifício ao lado. Com passo ligeiro e orgulhoso, bateu à porta onde, sem pompas de bom gosto, se encontrava a placa com a identificação do proprietário.
Foi o próprio a franquear-lhe o acesso pensando, em razão dos ousados contornos denunciados pelo vidro fosco, tratar-se de outro alguém que não a enamorada Cristiana. Ficou lívido, empedernido, com uma plastia perra de reacção. Deveria era estar contente. Atrapalhado e incompreensivelmente descomposto, quase não se lembrara de a cumprimentar. Estava notoriamente desconfortável com o sucedido. Mal balbuciava umas repetidas sílabas sem nexo. Não era o mesmo homem afável, de fino trato, exigente nos vincos do seu prezado vestuário que se mostrava irado sempre que as suas gravatas, criteriosamente escolhidas para cada dia da semana, não eram logo colocadas no cavalete para serem vigorosamente envergadas ao amanhecer. Não. Esta era outra pessoa, outro personagem.
Antes mesmo de inquiri-lo sobre as razões de tamanho ataranto, Cristiana vê entrar de rompante uma mulher de silhueta voluptuosa, a roçar a tonta inocência de um camuflado fluorescente em noite de Halloween. Os três estavam decididamente surpresos como que a perguntarem-se, num silêncio irresoluto, “quem é quem?”
Ele apresenta a berrante intrusa como sua nova assessora. Instado pelas circunstâncias a apresentar a mulher, ousa anunciá-la como “uma amiga de Portugal”. Boquiaberta, Cristiana não precisa de muito mais para perceber o que realmente se estava a passar. Ele, que ainda assim não esboçara a mais tosca tentativa em ordem a desfazer semelhante manta de equívocos, sem jeito para a exigência moral do momento, sentencia num arrepiante tom de alívio: ”não dá mais. Acabou tudo entre nós”.
De volta ao sofá, decide também ela fazer as malas. Não leva “souvenirs” materiais de uma fraude sem perdão. Apesar de tolhida pelos danos de uma lança que só atravessa os que acreditam, conclui ficar com o melhor do pior deste seu curto mas cinzento mosaico de vida: Joana, a filhota de três anos, que não será a recordação de nada mas um doce sinal de vida e generosidade.
Em boa verdade, naquele S. João, por uma questão de honrada sobrevivência, nasceu uma mulher que tudo fará para um dia voltar a ser feliz porque lhe está nas entranhas a faculdade de fazer a felicidade de alguém.
José Manuel Alho

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"Há que combater, sem tréguas, a lógica de que cada sala é uma quinta, que cada escola é uma ilha para não acabarmos naufragados num qualquer arquipélago"

  • Entrevista conduzida por Ana Beatriz Gonçalves Costa a José Manuel Alho 
Como profissional da educação que é, como professor do 1.º Ciclo, gostava de saber o que é para si avaliar. Que conceito tem de avaliação, de avaliação das aprendizagens dos alunos.
Para mim, a Avaliação acaba por ser um processo determinante, de monitorização da eficácia das estratégias adoptadas do professor, da sua postura, do seu comportamento, da planificação que faz dos conteúdo, das estratégias que decide adoptar em favor da turma, enquanto realidade necessariamente específica. Portanto, a avaliação será um um processo multifacetado que resultará desta amálgama de opções e variáveis, que têm a ver com a acção do professor, Nessa lógica, é sempre um processo aberto, sem etapas definidas, sem fronteiras fixas, mas que aponta para um fim tem necessariamente que ser comum a todos nós, profissionais da educação, independentemente da escola onde exercemos funções: o sucesso educativo. Complementarmente, a avaliação acaba por ser esse processo de monitorização constante, que está sujeito a alterações, que é aberto mas que visa, no essencial, descortinar caminhos e soluções para o tão almejado sucesso educativo.
 
Especificamente no 1.º Ciclo, conhece a legislação que existe sobre avaliação? Tem alguma opinião formada sobre ela? Acha que é adequada? Como é que acha que a avaliação deveria ser implementada?
Apesar desta torrente megalómana de produção legislativa com que os professores têm sido confrontados nos últimos anos, a avaliação deverá, no meu entendimento, ser enquadrada como o desafio maior de tornar o aluno capaz de. Assim, acho que as aprendizagens têm que ser forçosamente significativas, viradas para aquilo que o aluno - em função das suas características pessoais, das suas aptidões inatas - deverá ser capaz de fazer e de optimizar. Vou dizer uma verdade absolutamente universal e consensual: a avaliação deve ser contínua, sistemática e flexível. Não deve por isso socorrer-se só dos testes. Quer queiramos quer não, e mesmo que as pessoas digam o contrário, as fichas de avaliação sumativa são ainda tidas como ferramentas sacrossantas para avaliação do aluno e, mais recentemente, do professor. Em boa verdade, acho que os professores se deixam por vezes condicionar excessivamente pela necessidade de fazer avaliações periodicamente formais. Entendo que não se deve prescindir da avaliação formal, mas cada vez mais temos que ter meios auxiliares de observação, que sistematizem o registo dessa observação, que salvaguardem o professor enquanto profissional extraordinariamente bem preparado. Deve-se, contudo, resistir à tentação de cairmos em excessos perniciosos, de, por exemplo, termos um sem-número de grelhas, um sem-número de ferramentas e é aí que os agrupamentos, como unidades autónomas, que se desejam rapidamente comparadas a organizações na acepção mais nobre do termo, devem aceitar o repto de uniformizar procedimentos para que não haja em cada escola ou sala, instrumentos e formas de encarar a avaliação ostensivamente diversas e, pontualmente, incompatíveis. Competirá a essas organizações estabelecer - bem ou mal - as suas prioridades, os meios, os recursos, enfim, que caminho seguir para concretizar o seu registo de interesses. É importante saber porque se escolheu este caminho e não outro, que destinos nos poderão aguardar, em resumo, que fins comuns nos unem na prossecução da nossa acção educativa. Há que combater, sem tréguas, a lógica de que cada sala é uma quinta, que em cada escola é uma ilha para não acabarmos naufragados num qualquer arquipélago administrativo onde o isolamento é a principal marca identitária. Os agrupamentos devem, além da autonomia administrativa e financeira, mais preocupar-se cada vez mais em ter prioridades pedagógicas e educativas, sempre em diálogo com os professores, com as associações de pais (que são parceiros que gosto de valorizar), com as autarquias e os demais protagonistas da chamada sociedade civil.
 
Já falou em pais, na importância das Associações de Pais, qual é a sua opinião em relação à participação dos pais na avaliação? Quando digo isto é sempre na óptica da avaliação das aprendizagens dos alunos.
Estamos cada vez mais a viver tempos inusitadamente difíceis. Nunca como agora a denúncia de casos de crianças em risco nas comissões de menores atingiu os níveis que são conhecidos a nível nacional. Creio que o número deverá ser ainda mais preocupante porque infelizmente a realidade vai indiciando o aumento de situações de risco potencial . Parece que haverá colegas que terão muito receio em denunciar as situações dos seus alunos em risco. Até sou capaz de os compreender. Sei por experiência própria o desgaste que isso acarreta, principalmente quando tudo o resto em redor parece falhar ou mesmo ser instrumentalizado para atingir o professor. Mas a reflexão que devemos fazer, como cidadãos livres e educadores responsáveis, é a de como é possível, no início de novo século, existirem tantas crianças que raramente tomam banho, que não têm material basilar para o estudo, que chegam à sala de aula com olheiras profundas, que não jantaram na véspera ou que, mesmo doentes, as famílias não as vêm recolher à escola e esperam dias para serem levadas ao médico?! Como pai, pergunto-me: que pais são estes que permitem violentar por estas vias os seus filhos?!! Bem sei que isso não constitui a amostra representativa dos pais; acredito que não. Mas acho que também aí as associações de pais podem ser muito importantes se cativadas como parceiros. No geral, defendo: quanto mais associações de pais existirem, melhor.
No mais, está reservado às associações de pais ter um papel fundamental. Porém, questiono-me se os pais estarão mesmo preparados para estar num Conselho Pedagógico ou num Conselho Geral, se entretanto forem manipulados ou instrumentalizados para, por exemplo, manterem um determinado “status quo”... Quero acreditar que sim, desejo ardentemente que sim, mas os exemplos que vejo em redor provam uma de duas situações: ou que os pais não estão preparados e vão para estas reuniões como saem, em absoluto silêncio; ou então assumem uma postura vigilante, responsável e globalmente assertiva. Esperemos que esta última comece a ser a regra…
 
Mas especificamente em relação à avaliação, e pela experiência que tem, os pais, na generalidade, preocupam-se com a avaliação? De que forma?
Eu tenho sido um afortunado com os pais das turmas que ultimamente me calharam em sorte nos últimos anos. Não direi que agradarei a todos, pois não é pretensão que me anime. Terei tido, vá lá, um misto de sorte e de alguma experiência acumulada. Às vezes, acontece que alguns, de facto, entregam-se à lógica da visitinha de médico que ocorre em cada período lectivo, para lerem o respectivo boletim trimestral. Trata-se de uma forma muito ligeira de saber o que se passa. Mas, graças a Deus, a maioria dos pais com quem tenho trabalhado, o relacionamento tem sido de efectiva proximidade. Gosto de enfatizar a necessidade de remarmos para o mesmo sítio e ao mesmo tempo; que o trabalho do professor só por si não vale nada; a aprendizagem da criança extravasa em muito o quotidiano de uma sala de aula e, portanto, deve estabelecer-se uma parceria ao ponto de já ter sugerido – meio a brincar, meio a sério – a matrícula da Família na Escola. Faço questão de dizer às pessoas que os professores também são profissionais sujeitos ao erro e ao cansaço, enfim, que também para nós há dias bons e dias maus. Este diálogo enfatizando a essência humana do professor tem facilitado as coisas. Facilita em quê? As pessoas não precisam de estar à espera do horário de atendimento, no meu caso, para virem ter comigo. Dialogo com as pessoas sem prejuízo da actividade lectiva normal. Chego à minha escola, saio do carro, as pessoas interpelam-me e eu tento, com respeito pela privacidade que cada relação deve ter, corresponder às solicitações mais prementes dos pais. A parceria com a família no processo de avaliação é fundamental porque acaba por ter uma consequência benéfica que é a co-responsabilização e faz com que a avaliação seja partilhada. Em consequência, os resultados vão ser forçosamente positivos. Não vejo a avaliação como uma “arma” de arremesso, ou como o trunfo final, do género eu “tenho a faca e o queijo na mão” portanto “pais e filhos portem-se bem porque senão engendro aqui a minha jogada de mestre e faço o xeque-mate.” Nada disso.
Há uns anos atrás alguém disse que a avaliação deveria ser privatizada porque acabaria o monopólio do professor. É minha convicção que há muito essa lógica de actuação se extinguiu com o tempo. Acho que os professores devem abrir o processo de avaliação aos pais, participar com eles e envolver outros parceiros. Falo pelo exemplo da escola onde estou, integrada num meio francamente carenciado aos mais diversos níveis. Mas com as colectividades, com as pessoas das autarquias e de outros movimentos associativos - que têm às vezes uma disponibilidade e uma experiência de vida que lhes possibilita colaborar genuinamente com a Escola - a avaliação acaba por ser um processo dinâmico de inclusão em que as pessoas são chamadas a dar o seu contributo, embora em termos formais e finais, quer queiramos quer não, é assim que o sistema está, é o professor quem toma a decisão final.
 
E em relação ao seu dia-a-dia com os seus alunos, em contexto de sala de aula, gostava que me caracterizasse o tipo de avaliação que põe em prática. Falou-me dos testes, mas para além disso que instrumentos é que utiliza…O que é que faz para avaliar os seus alunos?
Com os meus alunos, esforço-me por diversificar as formas de tratamento e as estratégias tomando cada aluno como realidade una mas complexa. Tento, por norma, uma abordagem personalizada, de proximidade. Tento sentar-me ao lado dos meus alunos e, a certa altura, já sei o que é que cada um representa, as suas limitações, as suas potencialidades…
Os instrumentos de avaliação, que resultam de orientações superiores, provêm do Conselho Pedagógico e do Conselho de Ano, mas dependem igualmente daquilo que são as prestações em contexto sala de aula, não só em termos cognitivos como também daquilo que eu considero importante para a formação de cidadãos autónomos, livres e responsáveis. Esforço-me, principalmente, por ser capaz de pô-los (aos alunos) a pensar…
 
Também sobre a avaliação deles? Pratica auto-avaliação?
Sim, auto e hetero-avaliação. E extravasa em muito a componente formal dos testes. Tem a ver com trabalhos feitos nas diversas áreas e, portanto, a avaliação assentará, essencialmente, na observação, na constatação de que o aluno está a fazer o seu percurso, que caminho está a fazer. Acabo por ser um coordenador e animador de aprendizagens, na medida em que não espero nem obrigo ninguém a fazer o mesmo caminho, a passar pelas mesmas etapas. Cada um é um projecto de aprendizagem, cada um é uma individualidade e nessa óptica não quero tentar impor nada a ninguém porque há alunos que aprendem de qualquer maneira, até com um mau professor; outros há que precisam da tal proximidade, da tal personalização do ensino.
Com efeito, a avaliação e os instrumentos a que recorro acabam exigem registo, não só em grelhas mas também em textos, anotações no meu dossiê, nos livros dos alunos. Como os demais colegas de ofício, faço, por norma, testes trimestrais. Não gosto de dar aquela carga solene possivelmente decorrente da situação. Gosto de brincar e até lhes digo (aos alunos): “agora vamos fazer umas coisitas para os processos…” (risos)
 
Sente que os meninos têm noção de quando estão a ser avaliados?
Claramente.
 

 

(continua)

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Ele e ela tornaram o amor imprevisto

por José Manuel Alho, em 18.09.08

 

 
 
 
A inveja mora aqui
 
Orlando é um rapaz de proveniência humilde. Contido nos gestos e deliberadamente reservado nas palavras, desde cedo aprendeu a gerir o tempo. O que muitos sempre tiveram por uma irritante passividade, daquelas que indicia um temperamento avesso ao arrojo, mais não era do que a carapaça para uma racional perseverança, que projecta meticulosamente cada etapa da vida encarda como degrau naquela disputada escada com sentido ascendente.
Aos vinte e seis anos, com três irmãos dispersos pelo mundo, reflexo de um tempo em que o sucesso estava lá fora, Orlando soube optimizar o facto de em seu redor não ter a condicioná-lo elevadas expectativas. Às vezes, é bom que não se espere muito de nós porque, mais do que conter a pressão em níveis favoráveis, tem o condão de aumentar consideravelmente as possibilidades de surpreender quem nunca apostaria um chavo no dorsal que nos foi atribuído.
Filho de um pai militantemente alcoólico e irremediavelmente entregue ao perverso encanto de três maços de tabaco diários, este nosso amigo teve a almofadá-lo uma mãe desgastada pelo sacerdócio de, a todo o custo, defender a sua ninhada. Com singular engenho, que alguns adjectivariam de visionário, Orlando logrou licenciar-se em Contabilidade e Gestão. O seu reduzido, previsível e já largamente ultrapassado guarda-roupa faz antever um gestor pragmático. Nos últimos anos, os almoços e jantares alternavam entre a maçã e a banana e a banana e a maçã. Olhado pelos colegas de faculdade com um misto de pena e admiração, o “Landinho”, assim baptizado pelo amor de mãe, está longe de ser um caso de sucesso entre o sexo oposto. As casadoiras meninas que com ele se cruzaram nos entroncamentos da vida dividem-se entre o respeito pela serena humildade e a indiferença por quem não demonstra ter qualquer plastia que desfaça aquela aparência séria e tensa traduzida por duas mãos invariavelmente escondidas nos bolsos de uma já ruçada ganga.
Uma vez mais deixado à sua sorte, o novel gestor e contabilista não cessou de remeter curricula, de responder a anúncios de jornal e de comparecer a entrevistas onde, sem excepção, foi ironicamente excluído por excesso de habilitações. Como de habitual, a vida não lhe sorriu por dá cá aquela palha. Nasceu para viver com dificuldade e enfrentar a adversidade.
Um dia e quando se aprestava para recolher um daqueles periódicos de anúncios com distribuição gratuita, Orlando choca literalmente com Liliana, ex-colega de curso, filha de um bem sucedido casal de médicos mas, essencialmente, um “borracho” pejado de beleza e encanto. Absolutamente inesperado, o encontro reservaria estranhas revelações. Liliana estava ainda sem emprego e algo prostrada em razão de tantas dificuldades. Também ela almejava ingressar no mundo do trabalho para obter a sonhada independência financeira. Frustrada e até zangada com a vida, percebe ter em Orlando um cúmplice em tão denso infortúnio. Ele aparenta a serenidade de quem sabe que, mais tarde ou mais cedo, contornará os obstáculos. E isso dá-lhe alento. Trocaram lamentos, ofereceram sorrisos e registaram contactos.
Um mês depois, decidiam aventurar-se na fundação de um negócio de acolhimento nocturno de crianças para que jovens pais possam desfrutar de noites mágicas sem as inoportunas interrupções dos pequenos. Orlando conseguira cativar a confiança dos progenitores de Liliana que até avançaram com a “massa”. Tudo tem corrido bem e a mudança de instalações está para breve. O negócio cresceu. Ele já adquiriu o seu primeiro carro, veste bem melhor e até se consta que se entregou nos braços da enleante “Lili”.
Os que o conhecem desde pequeno menosprezam o sucesso. O rapaz calado e tímido assim se mantém. Mas agora acusam-no de arrogante. “Está melhor na vida e já nem cumprimenta as pessoas!...” – dizem. Não gostam da cor do carro, “verde tropa”, que “está a cair podre de velho” e especulam que a sua ligação à doce Liliana mais não será do que “o golpe do baú”. Num ápice, Orlando deixou de ser um rapaz trabalhador e humilde. É o alvo preferido da coscuvilhice feita em surdina e da avareza que não suporta o bem-estar alheio. “Como é que aquela rapariga se interessou por um tipo daqueles?!” – inquerem, perplexas, as beatas solteironas da rua que, em tempos, chegou a ter pena do agora apoucado “senhor doutor”. Há quem vaticine que “não vai ser preciso esperar muito. Quanto mais alto se sobe, maior é a queda!”
Uma vez invejosos, para sempre invejosos. Mais do que uma religião, a inveja passou a ser o alimento daquela gente frustrada e incapaz. “Landinho” percebeu isso e sente-se estranhamente motivado. Em jeito de graça, sempre que leva Liliana até casa ver a mãe, previne: “tem cuidado! A inveja mora aqui…”
  José Manuel Alho
 

 

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Notícia MUITO importante (Especial Saúde)

por José Manuel Alho, em 15.09.08

 

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Mundo Imperfeito - Reportagem SIC, de 14/SET/2008

por José Manuel Alho, em 14.09.08

 

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Obras, ruídos, poeiras e direitos do Consumidor

por José Manuel Alho, em 13.09.08

 

 

 

As obras e os “tugas”

 
Escolho novamente abordar reflexivamente esta temática: os direitos dos consumidores perante os legítimos interesses dos construtores/empreendedores civis, com relações e áreas de intervenção legalmente reguladas, atente-se, por autoridades públicas designadas para esta importante área da vida económica.
RUÍDOS E POEIRAS – Um pouco por todo o país, são recorrentes os problemas como serão as práticas “porreiramente” institucionalizadas sem que ninguém as conteste de tão generalizadas que se tornaram. Elevado número de empreendimentos são edificados sem grande respeito pelas elementares regras de segurança de/no trabalho para os seus operários, desrespeitando particulares com poluição sonora e aquela frondosa poluição atmosférica, consubstanciada numa mistela de pós e poeiras que inundam bens (móveis e imóveis) e pessoas, num atentado inqualificável ao direito à qualidade de vida.
Ignoram os prevaricadores que a Lei não se limita a proteger os cidadãos contra qualquer ofensa à sua personalidade física ou moral. Consagra também, nesse sentido, a protecção da tranquilidade, da segurança e do bem-estar.
SOBRE OS RUÍDOS – Parece normal - e até legal – que a construção a martelo de casas e blocos de apartamentos se prolongue durante os fins-de-semana, sem estar sujeita a qualquer tipo de imposições ou quesitos legais. Isso de o “tuga” da Parvónia dormir até mais tarde ao sábado e ao domingo ou de nem sequer imaginar que numa qualquer noite de sábado a escuridão seja iluminada por uma potente irmandade de holofotes é cada vez mais um luxo que em muito parece depender da sorte. Cumpre então aqui fazer um pouco de serviço público, não vá o caro leitor dar por mal aplicado o seu tempo ao ler-me e a Administração do “Sapo” sentir que está a desbaratar os 537 mil €uros mensais com que paga estes inigualáveis escritos.
O Regulamento Geral do Ruído (RGR), aprovado pelo Decreto-Lei n.º 9/2007, de 17 de Janeiro, e, entretanto, objecto de alterações pelo Decreto-Lei n.º 278/2007, de 1 de Agosto, estabelece o regime legal aplicável à prevenção e controlo da poluição sonora, harmonizando o regime com o Decreto -Lei n.º 146/2006, de 31 de Julho, que transpõe para a ordem jurídica interna a Directiva n.º 2002/49/CE, relativa à avaliação e gestão do ruído ambiente. Para a descrição do ruído ambiente que tenha uma relação com um efeito prejudicial na saúde ou no bem-estar humano é utilizado o parâmetro “Indicador de ruído” obtido por medições efectuadas em determinados intervalos de tempo ou “períodos de referência” : a) Período diurno—das 7 às 20 horas; b) Período do entardecer—das 20 às 23 horas; c) Período nocturno—das 23 às 7 horas.
APLICAÇÃO E PROIBIÇÕES DO RGR - O RGR aplica-se às actividades ruidosas permanentes e temporárias e a outras fontes de ruído susceptíveis de causar incomodidade, designadamente: a) Construção, reconstrução, ampliação, alteração ou conservação de edificações; b) Obras de construção civil. É PROIBIDO o exercício de actividades ruidosas temporárias na proximidade de: a) Edifícios de habitação, aos sábados, domingos e feriados e nos dias úteis entre as 20 e as 8 horas; b) Escolas, durante o respectivo horário de funcionamento.
Contudo, o exercício de actividades ruidosas temporárias pode ser autorizado, em casos excepcionais e devidamente justificados, mediante emissão de licença especial de ruído pela respectiva Câmara Municipal. Algumas edilidades haverá a perder dinheiro sem saber por ignorarem que poderão emitir “licenças especiais”. Vai ser um fartote…
FISCALIZAÇÃO – Normalmente, quando a mostarda chega ao nariz, o “tuga” da Parvónia decide reclamar. Muitas vezes, nem sabe a quem se dirigir. Os seus inocentes olhos ficam vesgos quando, durante meses, não vêem um fiscal da edilidade nesta ou naquela obra, quando testemunharão jantares e almoçaradas entre construtores civis e presidentes de Câmara ou vereadores, regados com abraços, promessas de apoio para a campanha, ofertas de Natal, com presunto e “jóias para a senhora” à mistura. Enfim, o “tuga” da “Parvónia”fica intimidado com a sua (aparente) pequenez perante carteiras tão bem aviadas para o que der e vier. Por norma, faz uma queixa oral – que nestas coisas, os “tugas” “porreiros” não querem nada escrito… - e fica à espera. Outros, reduzem a escrito, tiram fotos e… também ficam à espera. Alguns senhores autarcas sentem-se afrontados, acossados e intimidados quando questionados por escrito e até pensam que não estão obrigados, dentro de um prazo legal, a responder igualmente por escrito aos seus concidadãos. Indispõem-se com os homens e mulheres conscientes dos seus direitos porque para alguns deles “eleitor existe somente para duas coisas: votar e pagar impostos”. E até já houve quem mandasse o secretário investigar “se isso do Código de Procedimento Administrativo existe mesmo ou se não passará de uma piada de mau gosto só para me tirar do sério”.
Na verdade, a fiscalização do cumprimento das normas previstas na legislação aplicável compete: a) à Inspecção-Geral do Ambiente e do Ordenamento do Território; b) à entidade responsável pelo licenciamento ou autorização da actividade; c) às comissões de coordenação e desenvolvimento regional; d) às câmaras municipais e polícia municipal (a existir), no âmbito das respectivas atribuições e competências e às autoridades policiais e polícia municipal relativamente a actividades ruidosas temporárias, no âmbito das respectivas atribuições e competências.
CONCORRÊNCIA DESLEAL - Mais do que o cumprimento da Lei, do direito à qualidade de vida dos residentes, das tentaculares promiscuidades entre poderosos, existirá uma outra dimensão do problema. Se por um lado há empreiteiros, com poucos escrúpulos, que trabalham ao sábado e ao domingo para adiantarem receita porque têm dinheiro vivo para pagarem horas extraordinárias a torto e a direito, outros haverá que, atados à Lei e limitados pelas circunstâncias de um país em crise, não disporão dos mesmos argumentos. É uma deslealdade que ter de ser combatida e exemplarmente punida.
CONCLUSÃO – Está claro que o “tuga” da “Parvónia” será sempre o elo mais fraco. Tem pouco dinheiro e está sempre na iminência de ficar “teso”. Por deficit cultural, não quer ficar mal visto junto do “senhor presidente” e temerá (sempre) represálias. Assim sendo, resta-nos confiar que, neste país, exista uma numerosa casta de autarcas honestos e justos, que conheçam a Lei e zelam pelo seu integral cumprimento. Doa a quem doer.
Mas isto, afinal, é só o Alho a falar…
José Manuel Alho

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No início de novo ano lectivo, uma reflexão...

por José Manuel Alho, em 11.09.08

 

Professores:
- De entertainers a engolidores de hipopótamos adultos?!
Poucas profissões, em todo o mundo, gozam do prestígio junto da sociedade quanto a dos professores. Transmitir conhecimento(s), a crianças ou adultos, é tido muito justamente como um sacerdócio pela maioria dos docentes. À semelhança do também ocorrido com toda a sociedade, o trabalho realizado pelos professores sofreu profundas alterações nos últimos anos. As origens das transformações estão na própria evolução vivida no mundo. E não apenas tecnológica, mas também de comportamento, pedagógica e até mesmo na administração do ensino.
Estas alterações obrigaram os professores a encarar a própria profissão de maneira diferente.
De algum modo, e apesar das investidas governamentais, os grandes agentes de transformação continuam a ser os docentes. A rotina vivida dentro da sala de aula tem levado aqueles a repensar os métodos, as práticas pedagógicas, os instrumentos de ensino, o uso das tecnologias e o relacionamento com os alunos. As mudanças acontecem, essencialmente, pela insatisfação do professor. No entanto, ninguém mais detém o saber. Cada vez mais o conhecimento é partilhado.
Para muitos, contudo, nos tempos que correm, não se espera do professor que tenha uma prática pedagogicamente correcta, que domine bem os conteúdos temáticos da área que lecciona, ou que tenha uma formação geral abrangente, em resumo, que seja aquilo que antigamente se considerava por bom professor ou professor competente.
Na minha caixa de correio electrónico, muitos profissionais da educação veicularam o que entendem ser as expectativas actuais sobre o que representará a figura do Professor e suas funções. Eis um apanhado despretensioso de considerandos. Hoje em dia, o que se esperará então do professor é que:
  • » Tenha uma enorme capacidade para engolir hipopótamos adultos;
  • Seja um bom entertainer de crianças e jovens amuados por não terem um telemóvel de última geração ou pelos pais não terem “papel” para a mais recente versão da “PlayStation”;
  • Seja o bombo da festa de alunos malcriados ou indisciplinados;
  • Tenha muita dose de paciência para “encaixar” as aleivosias de certos alunos que frequentam a escola como extensão do salão de jogos lá do bairro;
  • Invente muito tempo livre e ganhe o gosto pela leitura de legislação que em breve atingirá a perfeição de regular o ritmo da inspiração e da expiração, e se habitue a ter prazer no preenchimento regular de documentos que ninguém mais tarde lerá;
  • Demonstre uma colossal disponibilidade para poder levar para casa os problemas do dia-a-dia da escola e, se possível, indisponha, com irritante facilidade, os seus familiares com os mesmos problemas, preferencialmente à hora das refeições;
  • Esteja sempre de cara alegre - com um sorriso pateta de quem sabe ser carne para o espeto de superiores interesses - para os seus inocentes alunos que, desgraçados, não têm culpa nenhuma do gigantesco stress causado pela exigente missão que se resume em activar simultaneamente vários neurónios em ordem a acomodarem os conteúdos programáticos debitados pelos professores.
  • Disponibilizar sempre algum tempo adicional para dar apoio aos alunos que, desafortunados, não puderam estudar as matérias em tempo útil pois a pressão da sociedade chega a ser desumana. São as famosas “causas sociais” a ditarem regras…
  • Aceite, sem resiliência, ouvir as queixinhas que os encarregados de educação sobre importantes matérias não resolvidas dentro de casa, não vão os pais dar uma nota negativa aos “malandros dos professores”…
  • Esteja sempre disponível para dar mais uma oportunidade àqueles alunos que, ao fim de 257 tentativas, não conseguiram atingir o sacrossanto sucesso educativo;
  • Esteja ajeitado para, sem retorquir, levar um par de bofetadas de algum aluno ou de algum encarregado de educação, que não gostar da avaliação feita ao “menino d’ouro”».
A bem da verdade, importa reconhecer que grassa um notório descontentamento entre os que resistem e sobrevivem para se manterem fiéis às reais funções docentes. Estes considerandos que acabei de reproduzir – forçosamente bem-humorados – dão conta de um desgaste, feito de frustração e revolta, que cumpriria levar em linha de conta para que a situação nas nossas escolas não persista um barril de pólvora à beira da explosão. Mas isto é só o Alho  a falar…
José Manuel Alho

 

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