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Espaço generalista de informação e de reflexão livres. Na verdade, o politicamente incorreto afigura-se, muitas vezes, como a mais eficaz solução para se ser humana e eticamente LEAL! Desde 18.ago.2008. Ano XIII.

Texto de José Manuel Alho
Xavier Junqueira tem agora 35 anos. Prostrado no lancil de uma concorrida calçada, cravada numa cidade inundada de vultos inquietos, lembra o quarto que mantinha, com exemplar brio, quando os 14 anos de idade ainda lhe permitiam ter o peluche oferecido pela madrinha. Viaja no tempo. Recorda os persistentes mas agora tontos conselhos do mãe: ”não fales com pessoas que bebem ou fumem! Essa gente só traz desgraças...”
Rumo ao passado, os seus olhos ganham um brilho menineiro quando é tocado pelo cheiro da escola. Foi desde cedo acompanhado por um frustrado explicador, que à noitinha o ajudava a perceber o emaranhado de frases e gravuras esguichados pelos livros. Lembra, com nostalgia, a pasteleira (vulgo bicicleta) deixada pelo avô paterno em que se fazia transportar para, fizesse chuva ou sol, chegar à casa do senhor Afonso, o “descodificador de livros”.
Mais tarde, e porque os pais tinham horários desencontrados na fábrica, o imperturbável explicador decidiu, num rasgo de imprevista humanidade, permitir que Xavier almoçasse em sua casa para, “ao menos, garantir ao miúdo uma refeição quente”. Apesar de agradecidos, os pais nunca souberam da mágoa infligida ao seu filho sob a forma de humilhação diária: a sisuda família de acolhimento almoçava na sala enquanto Xavier comia, sozinho, na cozinha. Se precisasse de um guardanapo de papel ou de mais um copinho de água, tinha de berrar, em jeito de rogo desesperado, por uma sempre tardia atenção.
Porque não chegou a ter notas suficientemente altas, o clã Junqueira não enjeitou o ensejo de lhe impor o jugo da frustração. Não seria com ele que passariam a ter finalmente “um doutor na família”. Supremo desgosto! Fizeram-no sentir a mais.
Foi tratado como um pária, “uma lesma sem futuro”- diziam. Não resistiu. Cedeu a um desgosto que não chegou a ser realmente seu mas que o esgaçou sem apelo nem agravo.
Entregue à rua, as suas prioridades passam hoje por descobrir bons nacos de papelão, aceder ao chocolate quente dos voluntários da urbe ou “herdar” roçados cobertores que já cobriram camas feitas de memória curta. Nos bancos dos jardins, forrados com folhas secas, também elas perdidas e caídas, encontra o aconchego que logra igualmente alcançar perto dos átrios dos grandes prédios ou de hospitais indiferentes.
Afastado pelos olhares acelerados dos que têm medo de se reverem no infortúnio dos outros - não vá ser contagioso... - aprecia o ocaso da claridade. Caiu a noite e pela cidade ressoa uma desgarrada sinfonia de sirenes onde só ouvidos experimentados destrinçam as ambulância das viaturas policiais. De cigarro na mão esquerda, preso entre dois dedos amarelecidos com unhas encardidas pelo tabaco, sobressaem exóticas pulseiras que vem acumulando neste degredo sem carcereiro visível. Na face, a pela esticada realça um rosto encovado pelas recentes e picadas agruras. Trémulo, inibe-se de mostrar uma dentição feita de espaços e de um consentido musgo entranhado até ao tutano das gengivas.
Agora vai ter a sorte de dormir. O sono é um analgésico barato mas ainda assim eficaz. Acaba de passar uma daquelas ambulâncias amarelas que habitualmente testemunham os derradeiros suspiros de outros congéneres. Regressou um estranho mas compreensível silêncio. Afinal, os monstros de betão também adormecem.
Ao luar, Xavier experimenta o privilégio de sonhar. Sonhar faz-nos sentir gente, gente que sente. Apesar da fragilidade do papelão que o ampara, ironicamente inscrita por uma qualquer marca de frigoríficos, o malogrado ex-futuro doutorrecusa hipotecar a direito de se sentir gente como... nós.
José Manuel Alho

Texto de José Manuel Alho
Margarida acabara de ser designada directora do Centro de Saúde de uma vila tendencialmente urbana. Logo de início, fez sentir aos que consigo passariam a trabalhar ao que vinha. Na primeira reunião de trabalho, além das habituais apresentações, traçou um rumo que definiu prioridades e instituiu orientações muito precisas. Dizia ela que “o melhor é mantermo-nos fiéis à filosofia da linha. Enquanto andarmos na linha, tudo bem.
Se não, o comboio acabará por descarrilar”. Era um discurso muito determinado para uma profissional abada de chegar aos trinta.
Como os exemplos – bons ou maus – vêm sempre “de cima”, comunicou a todos a necessidade de cumprir horários, ter atitudes e comportamentos que, além de ajudarem a um bom ambiente de trabalho, estivessem incondicionalmente virados para os interesses dos utentes. As primeiras impressões dos “clientes” daquela unidade de saúde eram as melhores. Estavam notoriamente bem impressionados, surpreendidos até.
Nas primeiras semanas, trabalhou em parceria com uma dupla de anteriores responsáveis a fim de assegurar a normal transmissão de poderes. Ambos, a roçar os sessenta anos de existência, geriram os destinos daquele centro durante mais de vinte anos. Sentiam aquela nostalgia de quem está de partida, mas garantiam sentir a singular sorte dos que “ainda poderão chegar a gozar a reforma!” Palavras sábias.
O Dr. Gustavo e a Dr.ª Teresa encaravam estes novos tempos, estas consecutivas alterações de procedimentos e de lógicas de trabalho com estranheza, mas com a tarimbada desconfiança dos que sempre afiançam, quando confrontados com o ocaso de um ciclo, a certeza de “o inferno estar
cheio de gente bem intencionada”. Às tantas, o povo começou a aperceber-se das melhorias e a estabelecer comparações com um passado duradouro, largando rasgados elogios “à Dr.ª Margarida. Com ela, isto está diferente”.
Concomitantemente, a nova directora decretara o fim dos almoços e jantares para a Direcção daquele Centro de Saúde, que eram invariavelmente extensivos aos respectivos cônjuges, à custa do orçamento privativo dos serviços. As actividades culturais e recreativas, até então tidas por naturais e
imprescindíveis ao “bom ambiente” haviam então sido reduzidas a realizações com carácter vincadamente simbólico. Contudo e sem se aperceber, Margarida estava a afrontar interesses ainda instalados, que, lá no íntimo, encararam durante anos a fio aquela unidade de saúde como uma extensão da sua quinta pessoal, um esboço consistente de coutada privativa. Simplesmente, aqueles eram os rostos da “velha guarda”, uma caquéctica sociedade secreta sempre pronta a reconhecer os seus “amigos”, usuários habituais – e por isso defensores – das suas “piquenas ilegalidades”.
Iniciaram-se as conversas de corredor, as intrigas e o veneno anda a ser inoculado com a facilidade de um contágio por via aérea. O Dr. Gustavo e a Dr.ª Teresa estavam, mesmo de saída, a urdir um conjunto de ataques rasteiros. No essencial, não arrasavam o trabalho da jovem sucessora.
Nada disso. Decidiram lançar boatos e rumores de que maltrataria o seu filho de 3 anos, que seria esposa muito pouco dedicada e que no bairro onde residia era mal vista pelos vizinhos que, segundo relatos tão credíveis, mantinha discussões “do arco-da-velha”, que toda a gente ouvia tal “era o tom das vergonhas”.
Um dos funcionários, indignado com tão despudorado fel, decidiu contar a Margarida o que escutara. Tendo há algum tempo pressentido tão refinada resistência, a determinada directora não fora apanhada de surpresa. Tratara-se apenas de uma confirmação. Os antigos “gestores” viram finalmente os seus nomes no Diário da República. Estavam formalmente aposentados.
Ao contrário do expectável, os cidadãos Gustavo e Teresa, estando agora fora e com a possibilidade de gozarem a ansiada reforma, queriam estar dentro. Viviam intensamente todas as ocorrências passadas no “seu” Centro de Saúde. Até criaram e mantiveram saudosos “pontos de contacto”,que tudo lhes contavam. Haviam prometido que “lhe (à Dr.ª. Margarida) fariam a vida negra!”
Sem resultados práticos, forjaram uma carta anónima, pejada de erros ortográficos para disfarçar, não fossem alguns traços gráficos ostensivamente peculiares. Como não sabiam de computadores – uma “ciência oculta” – recorreram à sua caligrafia. Margarida constara o óbvio. Aqueles dois, mesmo instigando e escrevendo, em representação de algumas funcionárias ainda) pesarosas com a transformação encetada, sistemáticos requerimentos
disto e daquilo, estavam obcecados não consigo, mas com tudo aquilo que ela representava: a mudança, a novidade e a inevitabilidade de todos se prepararem ara, um dia, abandonarem algo, que por muito tempo, pensaram ser seu ao ponto e ousarem presumir que ninguém faria melhor que eles.
Perseverante, continua hoje o seu trabalho. Tem evoluído e ganho enriquecedora experiência. Sabe não poder controlar o que utros decidem pensar a seu respeito. A seu favor, tem o trabalho que é consensualmente reconhecido. No mais, para quem sabe esperar, tudo vem a tempo.
José Manuel Alho

Texto de José Manuel Alho
Abel foi sempre de poucas falas. Mais reivindicativo do que propenso a lamentações casuísticas, subiu na vida a pulso. Tem casa numa zona residencial privilegiada, um carro que ajuda a consubstanciar uma imagem de sucesso profissional justamente reconhecido e uma família que se estende a uma mulher há algum tempo doente e entregue às as responsabilidades de manter um lar com um rapagão já adolescente. Apesar do bem estar material ser iniludível, o que acumulou saiu-lhe do corpo.
A brutal mecânica da vida, pouco sensível à especificidade da individualidade humana, projectou-o contra uma rotina avassaladora. Foi sempre cristão cioso das suas práticas, fervoroso animador de eventos comunitários mas os exigentes afazeres laborais levaram-lhe quase tudo. Hoje, em face até dos ataques de quem tem sido alvo pelos êxitos somados, sente-se entediado com a vida, estando em vias de se sentir desprovido de FÉ. Não sabe o que são férias a sério desde há oito anos e pressente-se estar à beira de um esgotamento nervoso. Na empresa, com a recém chegada (nova) chefia, tem enfrentado imprevistos confrontos que, sem excepção, culminam em radicalismos hierárquicos que o têm humilhado. Está com o orgulho ferido.
Enfim, tudo lhe parece encoberto por uma escuridão que entenebrece os horizontes da alma, uma derrota previsivelmente irremediável. Há uns dias, a pretexto de uma falha de sinal da televisão por cabo, desabafou para o quem quis ouvir “estou farto desta vida!”.
Acorda e adormece com a solução do suicídio no pensamento.
Presume que com a extinção do corpo cessarão os problemas, um género de porta de salvação que lhe poderá até garantir uma aura de heroísmo perante os que o conhecem.
Abel achou importante voltar à Igreja Matriz para falar com o velho mas sempre sábio Padre Artur. Com ele sente uma proximidade que o tranquiliza. Durante largo tempo fala de si e das suas angústias, de como é pesado o jugo do seu desânimo. Diz-lhe que o melhor será “deixar este mundo”. O clérigo, com a serenidade dos que lidam com a complexidade dos vivos tentados pela morte, informa-o da “ilusão de presumir que com o suicídio acabarão as tormentas da vida”, prevenindo “poderás sair do sofrimento para entrares na tortura”. Na ocasião, lembrou alguns livros, de origem mediúnica, com relatos de antigos suicidas que davam conta “de vales sinistros, onde se congregam, em sociedades tétricas, os que sucumbiram ao auto-extermínio. Nessa regiões – enfatiza o pároco – diz-se que os quadros são terríveis, indescritíveis na linguagem humana. É-se atormentado pela visão constante das cenas do suicídio. O seu e o de outrém.”. De seguida, resume os relatos à suspeita de “sevícias e sinistras gargalhadas povoarem a longa noite dos que não tiveram a coragem para enfrentar o tédio, a calúnia, o desamor, a desventura...” Ousou até vaticinar que “se os homens pudessem ter uma nesga e olharem, à distância, as cenas de torturante sofrimento a que serão submetidos os suicidas, diminuiriam por certos as
estatísticas dos que optem de desistir de viver!”
Abel estava sinceramente impressionado. Ainda assim, insistiu: “que posso eu ter ou contar para simplesmente resistir?!”
Padre Artur, recostou-se no cadeirão, apontou os olhos à vidraça por onde perpassavam ténues raios de sol, como prenúncio de uma intervenção grave, e asseverou: “ acredito firmemente que a falta de FÉ responde pela quase totalidade dos suicídios. Quem tem FÉ não deserta da vida.
A FÉ é alimento espiritual, que fortalece a alma e nos põe em condições de suportar os conflitos da existência para que possamos superá-los. A FÉ é mãe extremosa da prece”.
Abel acusa o toque e permiti-se retorquir: “mas eu sempre fui um homem de fé!”
O eclesiástico não se detém: ”Sim, há muita fé que existe, apenas, nos lábios. Mas quem ora com FÉ tem o entendimento aclarado e o coração fortalecido. Não temas porque jamais se esvaziarão as fontes de misericórdia de Deus!”
Ter-se-á perdido em suicida e recuperado uma vida?
José Manuel Alho

Texto de José Manuel Alho
Passaram três semanas.
Francisco é um jovem e bem sucedido gerente bancário. As promoções internas obrigaram-no a abdicar de ter vida familiar própria. Casado com uma ambiciosa advogada e já pai de um puto de cinco anos de idade, conclui agora quase não ter usufruído da meninice do curioso Rafael. É uma criança há muito entregue aos mecanizados encantos de uma consola.
Com a Primavera pintada de fresco, decidiram – pasme-se – fazer um piquenique. Já em viagem, cantaram-se canções que a todos convocaram. Refrões ingénuos mas desde sempre familiares, heranças perenes que uniram muitas gerações.
A dado momento, o miúdo, no meio de tão ansiada agitação, deixa cair o “Lucas”, o fofo boneco que nunca recusou juntar-se às brincadeiras daquele ser tão ternamente frágil. Francisco, o homem do leme, reagindo por instinto à necessidade de prontamente resgatar o colorido Lucas, perdeu o controle do seu mimado monovolume. Despistaram-se numa ponte excepcionalmente concorrida.
Acordou numa cama de hospital. À cabeceira, este invejado gerente vê somente os pais que, a custo de uma quantas interjeições seguidas de silêncios
comprometedores, lhe comunicam a gravidade do acidente. A mulher o pequenote estavam em coma num quadro clínico a merecer fundadas reservas. Um e outro batiam-se pela vida.
Ele escapara apenas com um punhado de arranhões simbólicos.
Passaram mesmo três semanas?! Sim. Três semanas da mais crua agonia que a natureza humana pode experimentar. Deixou de ter dias e noites. As cadeiras nas salas de espera do hospital ganharam as suas formas. Despenteado, de camisa invariavelmente desfraldada, com a barba por fazer e de olheiras cravadas num olhar desgovernado, sabe que o filho e a mulher persistem em não registar melhorias.
Depois de insistentemente convencido pelo pai, aceitou ir a casa tomar um duche e fechar os olhos por umas horas para enganar o cansaço.
De novo acordado. Desta feita, parece novamente engolido por uma já conhecida normalidade. Bocejando, ouve o trinado dos sinos. Comenta com a mãe, nestes dias em casa para confeccionar algumas refeições: ”os sinos estão a tocar. Quem morreu?”
A mãe, com a tez irremediavelmente estarrecida, ampara-se no granito da cozinha. Baixa os olhos como que antecipando uma notícia que uma mãe nunca deveria dar a um filho já crescido...
Francisco é hoje um marido sem mulher e um pai sem filho. Deixou de ter desejo, esse cão irascível que lhe mordia os calcanhares para viver como um
animal presunçosamente especial. Aprendeu a não perguntar mais por quem os sinos dobram. Simplesmente, quando escuta aquele funesto zunido, refugia-se no carro, aumentando drasticamente o volume do rádio. Ouviu num documentário recentemente exibido que durante uma tempestade o chassis de um automóvel absorve toda a energia descarregada sendo por isso o local mais seguro para sobreviver a tão violento imprevisto.
Aprendeu a detestar imprevistos. Protegido na sua carapaça ultramoderna, recorrendo ao rádio como quem usa uma lanterna numa noite de severa tempestade, agarra-se compulsivamente ao grande resistente de todo este infortúnio: Lucas, o fofo.
Porque a vida (também) é feita de comportamentos defensivos, e mesmo correndo o risco de guetizar-se no seu mundo, definiu para si uma máxima, que sabe eternamente convincente: “quem não ouve é como quem não sabe”.
José Manuel Alho
Texto de José Manuel Alho
Acabada de entrar no carro, Ana agarra-se ao volante como que rogando que a alguém a beliscasse. Sim, acabara de escutar uma sentença de morte. João, o segundo marido de uma vida nem sempre linear, irá mesmo morrer. Tem um tumor cerebral inoperável, que lhe roubará, com uma certeza precocemente trágica, a mobilidade e a lucidez. Deixará de ser quem é para logo depois deixar simplesmente de existir.
João é um homem activo. A electricidade já não lhe reserva qualquer segredo. Habituado a deslocar-se ao estrangeiro para se aperfeiçoar profissionalmente, é um ser mais cosmopolita do que o comum dos seus pares. Desde que os lapsos de memória, aliados a dificuldades de orientação, o obrigaram a realizar uma extensa bateria de exames intuiu que algo poderia não estar bem. A primeira reacção do seu médico de família, excepcionalmente contida, conduziram-no a uma conclusão que logo partilhou com Ana: “o médico não diz nada. Mas ele deve saber de alguma coisa…”
Tomado por um pessimismo galopante, massacrou-se de dúvidas. Receios antigos, que davam conta de uma morte prematura, toldaram-lhe o discernimento. Uma conhecida procissão de fantasmas começou então condicioná-lo no seu relacionamento com os outros.
Tem uma filha que é a maçã dos seus olhos. Francisca é o pincel que lhe pinta a vida a traços muito finos mas poderosamente coloridos. Com rendimentos merecidamente elevados, tem proporcionado momentos únicos à família. Viagens à Disneylândia, entre outros mimos improváveis em tempos de crise generalizada, obrigam os olhos mais distantes a conceder-lhe o título de invejável chefe de família, que faz e dá o melhor pelos seus. Vizinhos há a concluir, sem grandes rodeios, que “é um escravo do trabalho”, “uma máquina de fazer dinheiro”.
Entretanto, com os exames médicos deliberadamente exilados no banco traseiro, Ana é uma mulher momentaneamente entregue aos cuidados de um “piloto automático”. Todos nós, quando confrontados com factos tragicamente arrasadores, sabemos funcionar com uma naturalidade atroz por algum tempo. Temos atitudes e comportamentos, dos quais até teremos dificuldade em lembrarmo-nos ulteriormente, que atestam a racionalidade mecanizada de qualquer mortal.
Chegada a casa, a tez esbranquiçada prenuncia um regresso iminente à realidade. João, que há muito sabia ser aquele o dia da revelação, percebe no olhar comprometido e fugidio de Ana a inevitabilidade do pior. Sem querer acentuar o doloroso incómodo dela, João atira: “E agora, amor? Agora que tudo vai acabar...”
O silêncio daquela mulher, com a franja humedecida de pânico, é esmagador. Naquele instante, a campainha toca. É o cunhado de João que sabia ser dia de notícias. Num tom refinadamente humano, indaga junto do prezado familiar: “Como está o mundo a tratar-te?”
João, agora confirmado como protagonista de um drama que o matará, opta por responder com imprevista fleuma: “nunca mais nos vimos desde que o Benfica foi campeão…”
Esta inadvertida visita deu a Ana a possibilidade de recompor-se. Contudo, não sabe o que responder. “E agora?!” – repetia ela vezes sem parar.
“Agora” é ter a capacidade de perceber a grandeza da sua existência a cada amanhecer. Todos estamos afinal condenados a exercer o direito de viver. João já conquistou o pódio da vida. “Agora” vai ter de aprender a desfrutar do prazer da vitória. O espaço de tempo entre o nascimento e a morte é tão breve como a aurora e o ocaso. Por estar vivo, vai “agora” preocupar-se em ter tempo para se ouvir e falar de si.
Tudo fará para não ser carrasco de si mesmo.
José Manuel Alho

Texto de José Manuel Alho
No romper de um novo dia, vislumbram-se os primeiros raios de sol que se emaranham com a neblina fresca da Primavera, a mesma que sanciona as múltiplas provas de vida desta natureza em arrojada mutação.
Jamir é um adolescente previsivelmente inseguro, ostentando uma acne inocentemente comprometedora, das tais que prenunciam a aurora da maioridade.
Há pouco mais de um ano que veio do Brasil. Está definitivamente com os seus pais, naturais deste quase rectângulo à beira-mar plantado, mas que, cumprindo um velho plano de vida, optaram por regressar às origens. Do Brasil ficaram perenes memórias de um trajecto intenso e repleto de expectativas goradas onde, apesar da insegurança e da crescente pobreza, sobressai uma singular herança sob a forma de um legado genético protagonizado por um miúdo sardento, franzino, de cabelo comprido e caprichosamente encaracolado.
Jamir reside agora numa rua tranquila, serenamente vetusta em contraste com a esgotante azáfama da competitiva metrópole que, do outro lado do Atlântico, serviu de palco à primeira etapa da sua paleta de sonhos. Não tem muitos amigos porque conhece pouca gente. Nos seus tempos livres, dispensa a televisão. Não aprecia o jeito formal e tenso dos “caras que falam na TV”. Tem dificuldade em perceber o que se diz. Não porque ouça mal ou tenha um vocabulário limitado. Na verdade, a língua portuguesa apresenta variações que só agora descobriu serem possíveis. Por vergonha, não pede aos seus interlocutores que repitam ou falem pausadamente. A tudo corresponde com um prostrado acenar de cabeça ou com um sempre oportuno “é verdade”. Pouco lhe resta. Refugia-se na web ou busca tácita compreensão num qualquer som “metálico” importado.
Seu pai aventurou-se em cumprir uma antiga ambição: ser carpinteiro. Desde cedo, manifestou atributos que há muito poderiam ter feito dele um artista de mão cheia. Porque a vida nem sempre projecta um traçado linear, só agora o “senhô” Januário ousa ser o que um dia sonhou para si. Investiu em ferramentas e desafia a estética instalada com um atrevido punhado de inovações que ameaçam surtir efeito entre a vizinhança mais próxima. Quando voltaram, e porque a luz do sol é fundamental ao bem-estar dos três, não tardou muito a cortar quase rente um plátano presumivelmente secular, plantado bem à frente da até então entrevada moradia. Ganharam a preciosa lenha para os rigores de um Inverno que Jamir jamais ousou antecipar nos seus piores pesadelos, mas herdaram um toco de respeito, daqueles de fazer mesmo inveja.
Rapidamente o inusitado toco passou a ser disputado por todos os membros da família. Aliás, é nos tempos a seguir às refeições que todos esgrimem motivos e se travam de razões para auferirem o direito a ali estarem, quais distintos monarcas gozando o prazer de mirar as fronteiras do seu disputado reino. Contudo, Jamir faz daquele toco o altar-mor do seu “armário”, vulgo, momento da vida – usualmente na adolescência – onde o ser humano não faz o que pensa e faz o que nunca pensou.
Num destes fins de tarde, com um pôr-do-sol “bem bacana”, o nosso jovem, tomado por aquela melancolia adolescente a roçar a pura sedução, descobre ao fundo da rua uma jovem de ganga definida, isto é, bem colada às suas ditosas formas.
Confiante na sua pose de rei e apressadamente seguro dos seus méritos, planeia dirigir-lhe a palavra se acaso a enleante plebeia lograr passar em frente ao seu castelo. É o que acontece. Ele digna-se levantar-se e caminha para o portão. Meticuloso, programou os segundos para que o encontro fosse premeditadamente ocasional. Subitamente, constata que a beleza que o empertigou é bem superior, em formosura e encanto, ao que os seus olhos haviam insinuado.
Consumido por uns estranhos calores, que sobem dos pés às raízes dos cabelos, ao ponto de ameaçaram os seus nobres caracóis, com um friozinho no estômago, desfaz-se num suor incontinente. Eis uma bica humana! Tolhido pela imprevista reacção do seu corpo, Jamir solta um pedido petulante:”Quer vir sentar no meu toco?”
Ela, mais velha e sabida na mui exigente arte de bem cortejar, desarma-o com o seu sotaque, bem próximo, por sinal, ao seu. Madura e já senhora do seu nariz, responde-lhe com um conselho subliminar: ”É melhor não. Sabe, já não seria a primeira vez que veria um toco cru pegando fogo…”
José Manuel Alho

Van Gogh
José Manuel Alho
Nuno recebera uma proposta de trabalho absolutamente irrecusável. Depois de muitos anos a queimar as pestanas na universidade, sentira o doloroso impacto da realidade que cedo se adivinhou adversa. O ingresso na vida activa, bem longe de corresponder às expectativas de um engenheiro em telecomunicações, reservou traumáticos ensinamentos num ateliê de reparações de computadores. Há sete meses casado com Mariana, o presente era gizado com o fino traço da ilusão, num conluio afinado mas irracional da ambição com a ingenuidade. A cada plano, em
qualquer delírio verbalizado em voz alta, os dois rasgavam horizontes, especulando com o melhor da sua imaginação. Queriam mais da vida.
Mas voltemos à janela profissional entretanto escancarada. Apresentaram a Nuno a possibilidade de ter um cargo por muitos disputado numa operadora de telemóveis, que forçava a mudança para o litoral. Na verdade, uma cidade com grande tradição piscatória. Além de um chorudo ordenado, somava-se um subsídio para despesas de fixação e uma viatura descaracterizada da empresa. Depois de descobrir que havia sido indicado pelo seu orientador de estágio – homem de grande prestígio naquele sector e profundo admirador das excepcionais capacidades do antigo aluno – não foi preciso muito tempo para dar uma resposta. O jovem casal disse sim ao desafio. Os dois quiseram entregar-se a uma aventura que os marcaria para toda a vida.
Chegados à cidade de acolhimento, a prioridade foi para a escolha de um novo ninho. Como os incentivos financeiros permitiam opções de qualidade, recorreram aos serviços de uma imobiliária. Numa tarde, tinham conhecido quatro hipóteses de residência. Nenhuma delas lograra arrebatá-los. Já sem grande esperança em convencê-los, a guia jogaria o último trunfo. Uma moradia junto ao mar, usada e por isso já mobilada. Na verdade, a casa parecia uma aguarela saída dos projectos mentais que os dois tinham sonhado. Isolada, cravada numa zona essencialmente verde, com o mar sempre em pano de fundo, onde o enleante zunido das ondas ameaçava o tórrido silêncio do lugar, era a habitação que há muito verdadeiramente desejavam.
Como os bolos apetecidos nunca dispensam uma cereja, o preço de aquisição era surpreendentemente acessível. Tomados pelo assombro da oportunidade, apressaram a formalização do negócio. Uma pechincha. Já se imaginavam a mostrar as divisões dos seu novo reduto aos pais, vangloriando-se de terem conseguido materializar um sonho inesperadamente feito realidade.
No dia da mudança, recolheram os longos lençóis brancos que tudo tapavam. Detiveram-se a contemplar o novo palco das suas vidas. Quanto mais viam, mais orgulhosos ficavam. “Olha para estes móveis! Já reparaste como a luz do sol inunda a casa inteira?” – constava Mariana inebriada pelo pasmo de cada instante.
O certo é que a moradia tinha mesmo tudo. Móveis, quadros, tapetes, cerâmicos decorativos, candeeiros de singular bom-gosto, enfim, um lar que parecia feito de encomenda. Até um quarto para bebé parecia ter sido carinhosamente preservado.
Contudo, um estranho sentimento os assaltou logo na primeira noite. E nas seguintes. Sim. E nas seguintes também. O misterioso é que os dois relatavam sentir o mesmo. Uma presença estranha que os acompanhava e observava. Experimentavam uma tristeza incomensurável, uma dor perturbadora, uma súbita e inexplicável vontade de simplesmente saírem dali. Ficaram particularmente angustiados pelo facto de em muitas gavetas terem visto meias de homem, camisas impecavelmente vincadas e outras peças de vestuário feminino concebidas para uma silhueta irrepreensível. Na sala de estar, por exemplo, até molduras propositadamente caídas mas sem retratos encontraram numa amálgama de objectos reconhecidamente
pessoais. Tudo parecia ter e estar no seu lugar.
Contactaram a imobiliária para expor a situação. Do outro lado do telefone, notaram uma indiferença deliberada. Apenas diziam. “Faça o que quiser. Dê ou queime. Isso agora é tudo seu”. A casa era isolada e o lugar quase inabitado. Procuraram alguns populares mas todos se esquivaram a conversas. Indagar sobre o passado daquela casa era assunto proibido. Acentuou-se o desassossego. Nuno e Mariana retrocediam nas passagens do seu mais recente filme. Casa boa, barata, num local privilegiado merecia ser publicitada pela imobiliária com maior visibilidade em vez de ser relegada para quinta opção.
Embrenhado nos seus pensamentos, o nosso engenheiro em telecomunicações abre ao acaso uma gaveta da requintada secretária. Descobre um CD onde, com tinta de acetato, está escrita a palavra “fotos”. Aberta a pasta, visualiza um casal, na casa dos trinta anos. Ela, de esperanças, beija um marido de olhos cansados. Sucedem-se fotografias como retalhos de uma vida que aparecem encaixados num mosaico colorido de memórias. Nuno imprime algumas imagens e faz uma pequena investigação. Chega a conclusões.
A casa havia sido construída por Eduardo, um empreendedor armador da zona. A pulso, construíra aquilo que muitos já chamavam de império. Deu emprego a muita gente. Estava bem na vida. Casado com Leonor, tinha erguido uma casa que ele próprio desenhara desde a adolescência. Há ano e meio que tinha comprado um iate.
Na primeira viagem, acompanhado pela mulher ostentando seis meses de uma muito desejada gravidez, foi surpreendido por uma tempestade. Não regressaram. A mãe dele ficou sem o seu único filho. O desgosto esgaçou-lhe o coração e sonho de ser avó. Não voltou mais àquela casa de ilusões. Decidiu vendê-la tal qual ficou no último dia.
Nuno e Mariana eram afinal estranhos numa casa sem preço. Escolheram depois um apartamento para viabilizarem o seu projecto de vida. Tiveram sucesso. Vão ser pais dentro em breve. Estão felizes.
Os lugares e as coisas transformam-se em legados quando tocados pela energia humana. Não é por caso que, às vezes, nos sentimos mais em casa ou menos à vontade com alguém. No mais, estamos talhados para fazer a diferença, deixando a nossa marca. Há quem lhe chame herança. E há heranças não se compram nem se vendem…
José Manuel Alho

Este é o 2 461.º post publicado neste espaço desde 18 de Agosto de 2008. Foi pensado com esforço e ingénua generosidade. Enquanto autor, assumi a pretensão de nunca me resignar ou acomodar. Em consequência, este blog foi crescendo em qualidade e na procura que já fidelizou.
O Blog do ALHO teve um ano memorável, que certifica uma evolução sustentada. Até agora, acompanhei, com abordagens que me esforcei por serem (atractivamente) diferentes, matérias várias que foram marcando a actualidade. Para o efeito, recordo o acompanhamento dispensado - numa versão mais local(izada) - ao processo que culminou na elevação de Albergaria-a-Velha a cidade, esmiuçando todas as suas implicações; o período eleitoral que antecedeu o sufrágio do passado dia 5 de Junho com a entrevista ao (agora) deputado José Manuel Canavarro que, em absoluta primeira mão, aceitou esclarecer (em EXCLUSIVO) os propósitos programáticos do PPD/PSD - outros partidos enjeitaram o repto - para o sector da Educação, entre trabalhos vários que foram objecto de divulgação em blogues de referência. Também não ignoro que neste espaço foram divulgadas iniciativas legislativas de TODOS os grupos parlamentares com assento na Assembleia da República. Foram eles que (por algum motivo) me procuraram e solicitaram a divulgação da sua actividade e assim contribuir para atenuar o gap de comunicação com os eleitores.

De igual modo, o exercício de uma OPINIÃO livre e destemida em matérias sensíveis - e por isso fracturantes - foi por mim mantido sem pruridos ou espartilhos de qualquer índole. Terá porventura significado algum desgaste pessoal, feito de incompreensões pontuais, mas esse é o preço (há muito conhecido e... sentido) para manter-me a pensar pela minha cabeça. Como muito bem lembrou Jules Renard, "O homem livre é aquele que não receia ir até ao fim da sua razão."
Na oportunidade, uma palavra de agradecimento penhorado à fidelidade e preferência de todos quantos visitam este blog com assumida militância. São muitos e continuam a aumentar. Para esta expansão, muito contribui a minha página no FACEBOOK onde a esmagadora maioria dos posts é igualmente publicada, instigando uma interactividade assaz enriquecedora, que muito me sensibiliza.
Por fim, ficam os números, supremas evidências do crescimento acima aludido:
JMA