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Sejamos gratos pelos pirilampos

Por José Manuel Alho

«Era uma vez uma serpente amargurada, que resolveu perseguir um pirilampo que só vivia para brilhar.

O pirilampo, tremendo de medo, tentava fugir o mais rápido que podia. Já a serpente, com a sua expressão feroz, vivia somente para o perseguir e jamais pensava em desistir.

Fugiu um dia, fugiu outro e ao terceiro, já sem forças, o pirilampo finalmente parou e disse à serpente:

- Será que te posso fazer três perguntas?

- Não costumo permitir isso, mas já que te vou comer, deixo que o faças.

- Pertenço à tua cadeia alimentar?

- Não.

- Fiz-te algum mal?

- Não.

- Então porque é que me queres comer?

- PORQUE NÃO SUPORTO VER-TE BRILHAR!...»

 

 

Foi Ilda Fontoura Pires, professora aposentada de Educação Moral e Religiosa Católica, formada em Ciências Religiosas, quem lançou, há um par de anos, o livro “A Cobra e o Pirilampo”, um conjunto de “52 estórias com mensagem” no entendimento da autora.

Lá no fundo, a moral desta história reveste-se de poética simplicidade: se um dia passamos a ter um brilho diferente, a par desse brilho vem a serpente do mesmo modo de que, com o sucesso, vem a inveja, ou - como vincaria o religioso - “onde Deus coloca as mãos, o Diabo coloca o rabo”. Quando se trilha o caminho do sucesso, há sempre alguém a torcer pelo (nosso) fracasso.

A questão será: somos cobras ou pirilampos?
Se calhar, se estivermos num momento de fina autenticidade, teremos de reconhecer que todos temos um pouco de cada. É verdade que (quase) todos os dias tropeçamos em cobras, mas não será menos verdade que, em cada um de nós, também há um bocadinho de cobra, que nem sempre gosta de ver os outros brilhar. Em todo o caso, urge perceber que cada um tem o seu próprio brilho, que não assombra o dos outros. Nenhuma estrela impede os outros de brilhar.

De facto, todos conhecemos um punhado de gente que anseia doentiamente por plateias e muito raramente suporta que mais alguém brilhe. São elas que nos lembram a história da serpente que perseguia o pirilampo.

Há pessoas assim: acham que são o centro do mundo, não perdoam o brilho dos outros. Onde quer que estejam, ei-las em todo o seu esplendor: manipulam, barafustam, choram, chantageiam… falam mais alto. Querem ter sempre razão. Disfunções do ego.

Na verdade, é difícil sobreviver-lhes. Por vezes, não há paciência ou afeto que resistam.

Daisaku Ikeda – líder budista japonês, pacifista, filósofo, poeta laureado e escritor com obras em mais de 20 idiomas – afirmou que seres que se melindram por não serem o centro das atenções, possuem uma mente pequena e ocupam um dos estados mais baixos da existência humana. Para ele, tratar-se-ão mesmo de seres que trazem habitualmente à tona o pior deles e o pior dos outros.  

Felizmente, nem todas as pessoas que brilham são assim. Por terem luz própria, chegam-se a si mesmas. Primam pela sobriedade ainda que logrem marcar os outros. Pela positiva.

Quantos de nós, sem antes nos termos cruzado com o fulano y ou x, já pressentimos estar perante alguém que liberta o que temos de melhor ou expõe o que temos de pior? Assim. Sem grande racionalidade ou aparente fundamento.

A vida tem pirilampos e serpentes. Gente que brilha e gente que não brilha. E isso não tem nada a ver com o ruído que fazem. Sejamos gratos pelos pirilampos – os que iluminam tudo, sem esforço e sem ruído.

José Manuel Alho

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Sucesso na adversidade

Por José Manuel Alho

 

Pitágoras garantiu um dia: «Anima-te por teres de suportar as injustiças; a verdadeira desgraça consiste em cometê-las.» E estava certo. Creio que todos nós, uns mais que outros, experimentámos ser alvo de injustiças sórdidas, de ataques vis e, no extremo, de infames estratagemas, que, no entanto, estarão (muito) longe de nos vergar à desonra exclusivamente imputável às almas movidas pela maldade.

De facto, estamos perante coisas diferentes. Perseguidores e alvos apenas se cruzam quando os primeiros se arrogam à soberba de, fazendo uso da sua posição privilegiada, infligirem danos vários por meio de injustiças urdidas com ignóbil requinte. Com efeito, a uns se reconhece o ónus da culpa e a outros se atribui o estatuto de vítima(s). Vítima(s) de injustiças.

Mas de pouco valerá procurar entender ou descodificar os espíritos cavernosos dos que sucumbem à malvadez de prejudicar o seu semelhante. Tratar-se-ia de um exercício insano. Nestes casos, talvez prefira centrar-me no sofrimento dos que, mergulhados nos mais agonizantes infernos, persistem em ser o que são, fiéis aos seus valores e princípios de vida. A estes – estou certo – o TEMPO, juiz supremo de todas as coisas, se encarregará de auxiliar e fortalecer pois só ele sublima a verdade. Em rigor, nenhuma mentira, calúnia ou difamação resiste à ação do TEMPO.

Quer queiramos ou não, o sofrimento, assente na adversidade, faz parte da vida. Superar as adversidades é um dos maiores obstáculos que, desde cedo, enfrentamos. Os problemas, sejam grandes ou pequenos, naturais ou fabricados por mentes perturbadas, são uma constante da nossa existência. Mesmo quando a vida nos corre às mil maravilhas, todos acabamos surpreendidos com problemas, lutas, desafios e infernos. É como se fossemos postos à prova, para vermos de que argamassa somos feitos, como logramos enfrentar algumas situações devastadoras e angustiantes. Não ouso passar a mensagem de que quanto mais adversidade melhor. Não. O sofrimento incapacitante não é benigno. Ainda assim, nada nos inibe que o encaremos como uma realidade da vida, uma daquelas inevitabilidades que nos atinge em número e intensidade diferentes. Quando acontece, aceitá-lo será uma parte da estratégia para nos livrarmos de mais sofrimento. Aceitá-lo pode constituir uma forma de nos reorganizarmos e seguirmos em frente.

Heródoto, filósofo grego, asseverou  “in illo tempore”: «A adversidade tem o efeito de atrair a força e as qualidades de um homem que as teria adormecido na sua ausência.» Quando reagimos de forma construtiva e positiva, as qualidades e as virtudes como a coragem, o caráter, a combatividade, a esperança e a perseverança emergem. Mesmo se cairmos na autopiedade ou na armadilha do “porquê eu?”, importará ser capaz de descortinar as oportunidades de sabedoria e de crescimento que acompanham os problemas. E aí residirá o sucesso duradouro dos que persistem na adversidade. Que sucesso? – perguntará o leitor.

Ralph Waldo Emerson, escritor, filósofo e poeta americano, definiu – em termos que muito me inspiram – essa coisa do “sucesso”: «Rir muito e com frequência; ganhar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; merecer a consideração de críticos honestos e suportar a traição de falsos amigos; apreciar a beleza, encontrar o melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma saudável criança, um canteiro de jardim ou uma redimida condição social; saber que ao menos uma vida respirou mais fácil porque tu viveste. Isso é ter sucesso!»

José Manuel Alho

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